São, por exemplo, os tantos casos de mulheres que se defenestram por cafajestes irrecuperáveis, homens decentes (sim, existem) que rastejam e se fazem pisar por mulheres que nunca vão lhes dar nenhum valor, pessoas com idéias tão mirabolantes que nem sabem como colocá-las em prática, empresários que de uma hora para outra encasquetam com alguma decisão que anos depois ninguém acreditará ter havido idiota suficiente para tomá-la.
Ok, herrar é umano, diz o ditado, e mais ainda o é culpar outra pessoa, mas... e insistir no erro, seria também? Não sei, mas parece que existe um certo "padrão Betamax" no comportamento da humanidade.
Para os incautos ou recém-chegados a este mundo (ou ao menos, aos mais recentes do que essa polêmica), quando foram lançados os primeiros video-cassetes, havia dois concorrentes principais: o VHS, sistemazinho chinfrim, de qualidade questionável mas baratinho, e o Betamax, de ótima qualidade, mas que gravava metade do tempo do VHS por fita. O Betamax podia ser tudo de bom (e não era lá bem assim), mas enquanto a Sony colocava-o num pedestal e esperava que os outros pagassem o preço, o VHS atendia ao consumidor nos seguintes quesitos: era pagável e gravava um jogo inteiro de futebol numa única fita. Qualidade? De que adiantava, se 99,999% das TVs vinham cheias de chuviscos? O eterno caso do medíocre de sucesso - o topo não é para todos.
Resumindo a novela, o VHS explodiu no mundo todo, enquanto o Betamax ficou limitado a uma parcela decrescente de endinheirados (nem o cinema o adotou direito). No fim, depois de várias re-edições, a Sony acabou substituindo o nascido-morto Betamax por outros padrões mais interessantes, baratos e menos complicados, como o Hi-8 e o mini-DV.
Pois eis que, anos depois, a própria Sony lança outra novela, desta vez batizada de Playstation 3. Tem recursos e processamento fantásticos, mas peca no "básico" para um videogame: preço e disponibilidade de jogos. Novamente, o óbvio! E não poderia ser diferente: só para começar, são 8 processadores. Oito! Todos iguais aos dos PowerMacs um pouquinho antigos. É tanto processador que o aparelho se dá o luxo de usar só 7 e deixar 1 de reserva, caso algum dos outros dê problema.
Resultado: somem-se outros tantos detalhes de arquitetura, e onze entre dez fabricantes de software dizem que é um pesadelo programar pro bichinho - exceto o pessoal do Linux, que são malucos, adoram complexidade - e não chegam a estar errados nisso, mas... no fim, de que serve um videogame sem jogos? Provas disso são os picos de vendas a cada grande lançamento e a cada aumento na defasagem de (atual e declaradamente) US$ 200 entre o custo de fabricação e o preço de venda do PS3. Ainda assim, não chega a ameaçar a vantagem mundial de 3:1 do Wii, apesar de dar uma canseira na "torradeira" (literalmente) Xbox.
Por outro lado, Xbox e Wii são o lado VHS da história: enquanto os donos do chamado PS3 se descabelam para comprar seus jogos, que saem com atraso sobre o próprio atraso, Microsoft e Nintendo só faltam fazer os jogos pelas gamehouses, de tanto apoio. Além disso, o PS3 é o único ainda 100% anti-pirata. Sim, eu sei, mas continuem lendo...
Sejamos sinceros, jogo pirata existe desde o Atari, todo mundo sabe e, apesar do bafafá, ninguém dá muita bola, nem mesmo os fabricantes - exceto a Sony. Até a Nintendo, que investiu milhões para criar chips anti-pirataria na época do SNES, acabou desistindo disso; acaba sendo mais caro do que a diferença nas vendas - infelizmente, boa parcela da população mundial prefere dar US$ 4 prum pirata aUS$ 120 pruma geradora de empregos mundiais. Triste, mas infelizmente é ponto contra a Sony - fora o custo da mídia Blueray, que não pode ser repassado ao consumidor, em prol da competitividade dos títulos, o que traz óbvio desânimo às gamehouses sedentas pelo máximo de lucro em cada título vendido.
Soluções são tão diversas quanto improváveis. Liberar um PS3 com mais memória (e mais caro) para chamar os usuários de Linux? Negociar com a Apple um MacOs para PS3 e atrair os applemaniacs? Afinal, com 8 CPUs, vídeo 1080p e som 5.1, poria no chinelo a maioria dos desktops vendidos por aí; dá até para rodar um emulador de PC mais rápido que um PC de verdade... mas e se a Microsoft enxertasse Windows no Xbox? No mínimo, daria uma briga boa - inclusive com fabricantes de PCs e componentes associados (apesar de que seria divertido). Cada saída parece ter um nó de controvérsias tal que a única realmente plausível seria jogar a toalha e recomeçar do zero.
Com certeza é um sistema e tanto, até eu sinto vontade de comprar um... mas em outra falha de marketing bem à lá Betamax, a Sony ainda não trouxe oficialmente o PS3 para estes trópicos, deixando-nos à mercê de lojas que garantem os equipamentos por no máximo 6 meses. E (considerando que por aqui o PS3 também tem seus chiliques), incerto por incerto, é melhor um que possa se fazer rodar com R$ 10 ali na feira do Paraguay (não que eu concorde com isso, repito, mas é só ir lá ver o que acontece).
No fim, são novamente reflexos de reflexos comuns, mímicas do comportamento humano. E a cada vez em que reflito sobre esses incidentes e essa mania de acreditar no incerto, ignorando o óbvio, volto a um tema que há muito me incomoda, e que citei no texto anterior, sobre a similaridade entre empresas e humanos. E fico me perguntando: qual será meu Betamax?

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